Os alimentos ultraprocessados são omnipresentes nas dietas ocidentais, e uma nova investigação associou estas refeições, bebidas e aperitivos produzidos industrialmente a uma pior saúde cerebral.
Em concreto, o estudo analisou a relação entre atenção, risco de demência e a proporção de alimentos ultraprocessados na alimentação de mais de 2.000 australianos sem demência, com idades entre os 40 e os 70 anos.
Estudo sobre alimentos ultraprocessados e saúde cerebral
A bioquímica nutricional Barbara Cardoso, da Universidade Monash, na Austrália, liderou a análise dos dados de questionários recolhidos junto de 2.192 participantes - maioritariamente mulheres brancas. Os participantes responderam a um questionário alimentar e realizaram quatro testes de função cognitiva que avaliaram a atenção e a memória.
Também forneceram informação demográfica, níveis de atividade física e outros dados de saúde. Isto permitiu aos investigadores calcular o risco de demência através de uma ferramenta estabelecida, que prevê a probabilidade de diagnóstico no prazo de 20 anos em pessoas de meia-idade.
Embora um estudo observacional deste tipo não permita determinar se existe uma relação de causalidade entre os alimentos ultraprocessados e a saúde cerebral, revelou padrões entre ambos que poderão ser explorados em futuras investigações.
No conjunto de todos os participantes, os alimentos ultraprocessados representavam cerca de 41% da ingestão energética total. Contudo, essa percentagem era significativamente mais elevada entre os participantes mais jovens e os homens.
Por cada aumento de 10% de alimentos ultraprocessados na dieta de uma pessoa, verificou-se uma diminuição distinta e mensurável de aproximadamente 0,05 pontos na capacidade de concentração. Uma maior presença destes alimentos também foi associada a um risco superior de demência, elevando a pontuação em cerca de 0,24 pontos por cada aumento de 10%.
“Para enquadrar os nossos resultados, um aumento de 10% de alimentos ultraprocessados equivale, aproximadamente, a acrescentar um pacote normal de batatas fritas à alimentação diária”, afirma Cardoso.
“Em termos clínicos, isto traduziu-se em pontuações consistentemente mais baixas em testes cognitivos normalizados que medem a atenção visual e a velocidade de processamento.”
Atenção, risco de demência e dieta mediterrânica
A investigação identificou ainda outros fatores associados a uma maior ingestão de alimentos ultraprocessados: menor nível de escolaridade, obesidade e menor adesão à dieta mediterrânica. Não foi encontrada qualquer correlação entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e as pontuações de memória.
No entanto, adotar uma alimentação “saudável”, como a dieta mediterrânica - que estudos anteriores associaram a um melhor funcionamento cerebral - teve pouca influência se os alimentos ultraprocessados continuassem presentes na equação.
Segundo os autores do estudo, isto poderá indicar que o próprio processamento dos alimentos afeta a saúde cognitiva, em vez de o problema resultar apenas de uma alimentação pobre em nutrientes.
Para este estudo, os alimentos ultraprocessados incluíam refrigerantes, batatas fritas de pacote, refeições prontas, sobremesas lácteas e cachorros-quentes - essencialmente, tudo o que não seja um alimento fresco e “integral”.
Porque podem os alimentos ultraprocessados afetar o cérebro
Trata-se de uma categoria muito abrangente, o que dificulta perceber exatamente por que motivo existe esta relação entre a saúde cerebral e a alimentação. Ainda assim, os investigadores têm algumas hipóteses.
“O ultraprocessamento dos alimentos destrói frequentemente a sua estrutura natural e introduz substâncias potencialmente prejudiciais, como aditivos artificiais ou químicos resultantes do processamento”, explica Cardoso.
“Estes aditivos sugerem que a ligação entre a alimentação e a função cognitiva vai além da simples ausência de alimentos considerados saudáveis, apontando para mecanismos associados ao próprio grau de processamento dos alimentos.”
Os aditivos constituem uma possível explicação, mas existem muitas outras.
Por um lado, os alimentos ultraprocessados estão também associados a problemas metabólicos, como diabetes, hipertensão arterial e obesidade, que, por sua vez, podem afetar a função cerebral.
Por outro lado, as pessoas com resultados mais baixos em testes de atenção e um risco mais elevado de demência poderão ser, à partida, mais propensas a consumir alimentos ultraprocessados. O local onde alguém vive também influencia diretamente o acesso a opções alimentares saudáveis.
Serão necessárias mais investigações para esclarecer exatamente o que está a acontecer. Ainda assim, há razões suficientes para considerar trocar esse cachorro-quente por uma sandes de salada - em pão integral, naturalmente.
A investigação foi publicada em Alzheimer's and Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring.






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